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terça-feira, 3 de novembro de 2015

O Show de Truman/ O Show da Vida: Comparações entre o mundo "real" e "virtual".

Texto retirado do Blog "A Casa de Vidro" que enfatiza os "reality shows", fenômenos da cultura de massa contemporânea, e podemos também colocar as redes sociais nesse circulo. Baseado no filme "O Show de Truman" (Truman traduzido literalmente como "o homem de verdade") essa obra-prima do diretor australiano Peter Weir (o mesmo de Sociedade dos Poetas Mortos) tem que ser entendida e interpretada para o momento "virtual" em que vivemos nesse dias atuais...

Texto escrito por Eduardo Carli de Moraes.






A Caverna de Platão, reinventada na era hi-tech da indústria cultural: eis o que The Truman Show concretiza frente a nossos olhos. A febre televisiva dos reality shows – fenômeno da cultura de massa que se tornou uma epidemia com a proliferação de Big Brothers e similares – é o tema do filme de 1998 realizado pelo cineastra australiano Peter Weir (o mesmo de Sociedade dos Poetas Mortos).

A ironia começa no título: The Truman Show seria mais apropriadamente traduzido como “O Show do Homem de Verdade”, o espetáculo “honesto” do true man. Só que o programa de TV em questão exorbita em falsidade, artificialidade, sendo claramente percebido pelo espectador como um mundo fake, como uma pseudo-realidade. Estamos diante de alguém que parece-nos preso numa cidade-de-brinquedo, numa vila artificial como estas que se fabrica nos jogos à la Simcity.


Neste Simcity-real que é Hollywood, por exemplo, edificam-se cidades cenográficas inteiras, fabricam-se pirotecnias e efeitos especiais mil, para poder criar um produto midiático cuja conexão com a realidade muitas vezes se perdeu tão amplamente que vemos diante dos olhos um carrossel de mentiras filmadas. Com o terreno todo minado pelas iscas do merchandising.


O personagem interpretado por Jim Carrey é o prisioneiro de uma Caverna similar àquela descrita por Platão em seu diálogo A República, só que agora numa versão atualizada para a era digital e cibernética. Assim como na Caverna estavam acorrentados os prisioneiros, que nada viam além das imagens fantasmáticas projetadas na parede de seu cárcere, Truman é o prisioneiro de uma ilha, gerida pela indústria do entretenimento, onde ele é tratado sempre, desde o princípio de seus dias, como uma marionete, um títere a ser manipulado, um peão a mexer no tabuleiro de xadrez do Espetáculo, sempre com o fim de maximizar os Ibopes e os lucros…

Todas as táticas astuciosas do merchandising estão sendo ironicamente criticadas pelo filme: Truman é muitas vezes coagido, pelas pessoas com quem “convive” na cidade cenográfica de que é um prisioneiro iludido, a postar-se diante dos anúncios publicitários. Empurram Truman para um cenário urbano onde, no segundo plano, vê-se um outdoor seduzindo para as delícias de um frango frito vendido nas junkfoodarias ao estilo McDonald’s e KFC. Enquanto joga golfe no asfalto, com seu falso amigo (na verdade um ator…), Truman é interpelado pela ideologia subliminar do consumismo: olhando para as câmeras com o rosto de quem está deliciosamente embriagado, mostrando claramente para a lente a marca da cerveja, o “amigo” obriga Truman a ouvir repetidas vezes: “Meu caro, não há cerveja mais deliciosa do que esta!” (Na real, o interlocutor não é Truman, de verdade, mas o imenso público de telespectadores que precisam ser convencidos a comprar o produto da marca Y…).

De modo similar, sua esposa está frequentemente conversando com Truman ao modo de um anúncio ambulante de gadgets à disposição no supermercado: reclama com o maridão que a grama está muito mal cortada, para em seguida recomendar que cumpre comprar  uma máquina nova, melhor, mais charmosa, à venda no WalMart, em promoção imperdível, proclamada nos slogans como revolucionária invenção da maravilhosa e humanitária empresa X…

A mesma “estrutura narrativa” do mito da Caverna platônico também é utilizada no filme de Weir, que descreve como Truman de certo modo vai buscando libertar-se de sua prisão, passando a questionar a veracidade do mundo que rodeia seus sentidos. A descoberta de sua condição de escravo manipulado pela indústria do entretenimento é o que constitui a verdade aventura do filme. Truman vai “despertando” para sua real condição: a de alguém que foi desde o princípio ludibriado.

Quando começa a descobrir-se como alguém que foi enganado, alguém que foi encerrado na prisão – literal e mental – de uma Caverna que Marx & Engels analisarão sob o conceito de ideologia. Truman é prisioneiro da caverna ideológica no sentido de que foi. por 10.000 dias. o funcionário exemplar da maquinaria do Espetáculo, trabalhando sorridente para o lucro e o deleite dos empresários midiáticos, que enriqueciam suas contas bancárias com a venda de mercadorias nos tele-mercados altamente capitalizados.



O filme, porém, descreve uma crise, que se passa aproximadamente no dia 10.000 do programa (uma longevidade impressionante, mas que não é inteiramente irrealista: vejam quanto tempo de duração no ar tiveram shows televisivos como Seinfeld, Friends, Chaves, Trapalhões, Jô Soares  etc.). Todo o cenário destinado a ludibriar Truman começa a desabar como um castelo de cartas na ventania. O prisioneiro começa a se debater contra aquilo que o acorrenta à Caverna, aquilo que o prende a esta ilha de enganações impostas por autoridades invisíveis.

Truman, se um dia pôde engolir direitinho a lorota ideológica, que lhe inculcou o pensamento de que ele vivia num dos lugares mais maravilhosos da terra, a ilha de Seahaven, no decorrer do filme vai rebelando-se contra a cidade. Vai tornando-se, de cidadão respeitador da lei e da ordem, em anárquico subversor de limites e regras.

Além do mais, se Truman pode escapar às teias totalitárias do sistema que o rodeia com suas câmeras de onivigilância, é também porque seu mundo subjetivo não é totalmente domável pelo poder. Não se controla tão facilmente a “vida afetiva” de um ser humano como se faz com um robô programado a responder aos comandos de um controle remoto. Vejam, por exemplo, esta “cena” chave do quebra-cabeças: para os empresários de TV, foi apenas uma bela cena, um ótimo produto da teledramaturgia, quando Truman, em sua infância, velejando no mar com seu pai, enfrentou uma tempestade (artificalmente induzida, é claro!), e na qual seu pai supostamente morreu afogado e foi sepultado no chão do oceano, para nunca ter seu cadáver encontrado. Pode-se imaginar os magnatas da mídia celebrando os milhões de dólares provindos dos picos de audiência. Para Truman, porém, aquilo não é “cena”, é vivência; e torna-se, é evidente, um trauma.



Cedo no filme nos damos conta do caráter neurótico de Truman, que cedo se manifesta no seu sintoma da fobia à água. Em seu trabalho, mandam-lhe realizar um serviço em outra ilha, que exige uma viagem de balsa (ferryboat), mas Truman, ao encaminhar-se ao barco, é acossado e possuído pelo trauma, pelo retorno da experiência antiga e amarga. Sua fobia o impede de seguir viagem. A fobia de Truman é o que prende-o a Seahaven e o que, no filme, ele terá o empenho heróico de superar.

 A neurose que lhe restou como legado de suas vivências como prisioneiro da indústria cultural de espetáculos lucrativos é também a raiz de sua insatisfação existencial, inseparável esta de sua rebeldia. A tensão dramática impressionante do filme tem a ver com o conflito interior que toma conta do personagem enquanto ele vê digladiarem-se, em seu peito, o “conservadorismo”/conformismo daquele que adapta-se e não questiona, de um lado, e o ímpeto de rasgar o véu de Maya e saber de fato o que está ocorrendo, de outro.

Se, por um lado, o peso do passado lhe legou o imobilismo e a fobia, ou seja, a incapacidade psicológica e física de escapar pelo mar, por outro lado Seahaven vai tornando-se tão mais insuportável quanto mais Truman vai desvelando sua verdadeira natureza: a de uma prisão. Da prisão da ideologia só podemos nos libertar quando tivermos plena consciência de sermos prisioneiros! Rosa Luxemburgo dizia que “quem não se move não sente as correntes que o prendem”. Truman, conforme o filme progride, sente cada vez melhor as correntes que o prendem, e esta consciência da servidão, a insatisfação diante desta condição servil, são aquilo que dá força à seu ímpeto rebelde, disruptivo.

Não sei se concordam comigo, mas para o meu gosto o filme fica bom mesmo quando Truman vai virando a ovelha negra, o caso-de-polícia, o perigoso subversivo. Pois o filme versa também sobre o fracasso, em última instância, do poder controlador e manipulador que procura seu domínio através da vigilância e do policiamento mais invasivos. Temos no filme Truman Show, pois, uma prefiguração de toda a temática que veio à tona com as revelações de Edward Snowden e as práticas cotidianas, nos EUA, da NSA (National Surveillance Agency). Certas forças políticas acabaram por acreditar que 1984, o clássico romance-denúncia de George Orwell, era um manual de instruções (!), ao invés de uma contundente porrada dada nos totalitarismos de ambições dominadoras.

A Sociedade do Espetáculo revelou-se como a era dos control freaks, com a proliferação de um complexo industrial carcerário e policial que atinge, em especial nos EUA (mas também no Brasil, na Rússia, na China e em tantas outras regiões) a dimensão de uma epidemia bastante triste onde o aprisionamento em massa, para punir os pobres, encontra-se articulado com uma indústria cultural destinada a perpetuar ideologias de sistemas econômicos e políticos que são justamente os responsáveis pelo militarismo, pelo belicismo, pelo frenesi carcerário.  Truman é “prisioneiro de luxo”, é claro, e sua condição nem de perto lembra a condição execrável em que são condenados a viver os “condenados” pela Justiça, lançados ao sistema carcerário hoje dominante…

A teia de mentiras, tecida ao redor de Truman, começa a colapsar quando ele revê seu pai, que ele pensava morto, reaparecer em cena como um mendigo. Para economizar uns trocados, a empresa de TV provavelmente resolveu utilizar o mesmo ator para personagens diferentes, o que é o estopim para a onda de ceticismo que toma conta de Truman. Desconfiando ele desperta. É duvidando da veracidade do sistema à sua volta que ele começa, mexendo-se, a sentir as correntes que o prendem. Sua insurgência, é claro, nasce de modo instintivo e um tanto caótico.

Como um bicho feroz numa jaula pequena, começa a sonhar em ir para a ilha de Fiji – que é exatamente do outro lado do mundo, o lugar mais longínquo que existe para ele. Que Truman queira vazar para o mais longe possível de Seahaven é um sinal de sua insatisfação com sua condição. O filme de Peter Weir vai convertendo-se aos poucos em um jailbreak, uma aventura de fuga-da-prisão, mas bem mais alegórica do que os enredos realistas de filmes como Fuga de Alcatraz, Papillon, Um Sonho de Liberdade.

 O sistema organizou-se ao seu redor no sentido de amedrontá-lo diante da perspectiva de viajar, de partir. Ele tenta comprar uma passagem de avião para Fiji, mas é óbvio que não conseguirá do sistema tão fácil o seu tíquete de fuga. Tudo fazem os “donos do jogo” para dissuadir Truman de escapar de sua jaula dourada. Como uma mosca aprisionada na teia do poder, Truman tenta escapar dos controles, mas tem a experiência reiterada de que o poderio dessa entidade controladora é muito extenso. Com seus tentáculos, que parecem estar em toda parte, o grande polvo do “poder” tenta impedir todas as rotas de fuga de Truman. Suas tentativas de escapar devem apenas gerar boas cenas de ação, aumentos nos picos de audiência, mas devem mantê-lo preso ao labirinto, como um rato de laboratório.



Com o carro, Truman tenta se dirigir a Atlantic City, depois a New Orleans, mas o polvo do poder não cessa de interpor obstáculos em seu caminho, fabricando trânsito congestionado, botando fogo em estradas ou simulando uma contaminação radioativa que impede o tráfego na via. É como se uma divindade transcendente se manifestasse em atos ao redor de Truman. Mas não se trata de um deus, mas sim do personagem de Ed Harris, o “coordenador” daquela peça complexa de teledramaturgia…

O Ed Harris encarna a figura do manipulador-mor, do mestre-de-títeres; para ele, Truman, apesar de um homem de carne-e-osso, é tratado como marionete, como boneco. Provocar emoções intensas em sua cobaia, o Truman que é seu rato-de-laboratório-midiático, é a função desta figura cheia de poderio. Ele “orquestra” não apenas um programa de TV, mas todo um sistema de doutrinação social, toda uma máquina difusora de ideologia.

Um exemplo muito concreto: o Titereiro Christof (Ed Harris) conduz sua cobaia (O Truman, Jim Carey) de experiência traumática (a suposta morte do pai) a re-encontro triunfal – e o Ibope bomba! Truman descobre que seu pai não morreu de fato naquela noite fatídica, mas que sobreviveu e re-aparece agora em cena, em boa hora, para fornecer à telenovela a possibilidade de um lucrativo melodrama sobre a reunião de pai e filho. “Grande show!”, comemoram os produtores do Truman Show, quando o títere de carne-e-osso Truman abraça-se com seu pai, como se estivesse aplaudindo a transcendência divina que intercedeu a seu favor.

Truman é sobretudo um Frankenstein da indústria cultural globalizada, uma criatura disfuncional e estranha do sistema que o incubou. A ideia era realizar um reality show realmente global – 1.7 bilhões de pessoas assistem pela TV ao nascimento de Truman; 220 países estão ligados em suas aventuras e desventuras… – mas que acaba revelando a própria máquina de produzir psicose que é todo esse o sistema Capitalista-Espetacular.

As câmeras escondidas (um enxame delas!) vigia e transmite a vida de Truman sem parar – ele está sempre no ar… –   e isso lhe dá a impressão alucinante de que o mundo gira ao seu redor. A psicopatologia de Truman é pior que um narcisismo, que um antropocentrismo patológico, é uma espécie de egocentrismo com elefantíase. E difícil é decidir qual dos dois tem o ego mais elefântico, se Truman ou se Cristof. Na verdade, no filme Cristof é quem “brinca de Deus”, realmente; Truman é sua vítima, seu títere, seu Frankenstein. A noção de divindade se aplica aqui porque a Truman, os poderes de Cristof parecem de fato como emanados de um “poder superior”: aquele poder, que na realidade concreta mantêm Truman num cárcere, num imenso bunker de metal, situado em Hollywood, California.

Truman não tem idéia e não toma consciência com facilidade do fato de que ele não está em “Seahaven”, a ilha, porra nenhuma; ele está aprisionado dentro de um artifício, dentro de um bunker que foi isolado do real. Não é permitido a Truman que saiba de sua condição de cidadão de Hollywood – ele tem que prosseguir cego, preso à lorota de que ele de fato vive numa inventada terra de ficção, uma fantasia armada em concreto.

A questão que fica é: caso tiremos Truman desta sua prisão-bolha, deste seu bunker de artificialidade, o que ele faria depois de viver um tempo “no real”? Talvez sentisse uma saudade imensa de sua Ítaca, a Seahaven onde “tudo gira ao seu redor”. O narcisismo de Truman é um construto da condição social em que se encontra, na posição de uma espécie de escravo da indústria cultural. Cristof, o pequeno deus deste micromundo onivigiado e onicontrolador, o tirano-mor deste totalitarismo em microcosmo, é o megalômano dos megalômanos. No filme, Cristof é figura meio Prometeica, que quer rivalizar com o poder de deus, e que por isso acaba tratando outro ser-humano como coisa – peão de xadrez, marionete de um teatro de Ibopes…

Para Truman, existe também um “Dark Side Of The Moon”, um lado escuro da Lua, e é literalmente o fato de que a Lua em seu céu é uma fake-Moon, uma construção humana, e nela escondido está o “olho” do Poder, o Panopticon da trupe de Cristof, essa figura que é celebrada na TV como um “televisionary”. Ou seja, o “televisionário”, o visionário da mídia, soube criar toda uma teia de artificialidade dentro do qual manipula sua cobaias humanas, instigando-os às situações e aos afetos que dão boa audiência e aumentam a venda de mercadorias… O importante é que o Truman Show continue “vendendo”, e pra isso a cobaia-Truman deve levada a extremos, mesmo que isso destrave comportamentos excêntricos e imprevisíveis.

No fim das contas, Cristof vende seu supostamente “revolucionário” produto-midiático como uma grande inovação pois é um show sem script pré-definido, um show que vai se escrevendo conforme acompanha a “aventura de formação” de seu protagonista entre o berço e o seu 10.000 dia… A crise destravada neste limite transposto do 10.000 dias tem a ver com uma série de irrupções de estranhezas no cotidiano de Truman, a começar por aquele cena, bem no inicío, quando um holofote de luz despenca do céu como se fosse uma estrela cadente e espatifa-se no asfalto, para assombro de Truman, que não sabia que holofotes podiam chover das nuvens… Que estranho mundo, digno da imaginação de um Lewis Carroll, o cinema de Peter Weir soube realizar com este neo-clássico do sci-fi!

A crise de Truman impulsiona-o ao jailbreak, o que faz com que ele escape, pela primeira vez, ao radar do poder, furtando-se aos tentáculos do polvo onipresente. Cristof, quando seu Frankeintein desaparece, como se escapulisse de sua coleira, brinca de deus em modo hard e apela pesado: ordena que, no meio da madrugada, faça-se nascer um sol… C0m a luz do sol artificial, chamado a raiar antes da hora pelo teledramaturgo em seu jogo de “Master of Puppets”, Christof manifesta-se enfim com a arbitrariedade que se espera de uma boa divindade. Chuta o pau da barroaca e ousa penetrar na “normalidade instituída” do “cosmos” de Truman e subverter as regras do jogo. Truman, diante disso, pensará estar diante de um milagre? Ou já raiará nele a noção de estar preso dentro de um grande estúdio, dum pequeno theathrum mundi, onde a Verdade lhe foi vedade?

Quando Truman tenta escapar das garras deste mundo imundo e seu deus arbitrário e onicontrolador, Chrisof se irrita e sua psicose se manifesta. Truman é, para Cristof, uma espécie de posse, de propriedade, que ele não tolera perder. Truman tenta navegar para longe de seu cárcere, mas seu carcereiro Cristof destrava os temporais relampejantes, ainda que sob ameaça de virar seu barco e lançá-lo a uma possível morte por afogamento. Ao vivo, um magnata da mídia pratica uma tentativa de homicídio, ao vivo e a cores, justificando-se assim: “Truman nasceu diante das câmeras, por que não poderia morrer diante dela?”

Truman embarca em sentido inverso ao de Ulisses na Odisséia: este queria sair das tormentas do mar para retornar ao lar e à sua Penélope em Ítaca. Já Truman quer deixar o porto seguro de Seahaven para enfrentar as tormentas que o enviem ao coração do desconhecido, ao cerne da descoberta. É aí que Truman realmente vira herói de um filme quase contracultural: quando escolhe encarar o risco e tentar sua fuga, custe o que custar. Ele quer intensamente libertar-se de seu “deus” perseguidor, sempre vigilante, sempre interventor.

Seu último ato, que põe um the end no programa de TV mais longevo e mais lucrativo da história da teledramaturgia (isso no mundo fictício tão bem bolado pelo roteiro de Andrew Nicol), sugere a escolha de Truman por um “salto no escuro”: ele prefere a independência à escravidão, o controlar-se como ser autônomo ao invés de prosseguir marionete de um Master of Puppets. Para relembrar uma imagem icônica da chamada Geração X, ainda carecemos do aprendizado necessário para, ao invés de ficar nadando atrás da isca do dólar, como o bebê na capa do Nevermind, nadarmos em direção à saída do aquário onde estamos encerrados…

Batendo de frente com a parede onde o céu estava pintado – aquele céu, que visto de longe, lá das margens de Seaheaven, parecia de fato um real horizonte sem fim! –  Truman chega ao estopim final da crise revolucionária que o transformou e transtornou. Ele bate de frente com o horizonte limitado, com as barras de ferro de sua jaula, que ele confundia com o céu aberto.

Custe o que custar, a verdade ele quer degustar. Truman abre a porta e deixa o recinto, abandona a farsa, vaza da Caverna, põe um ponto final à manipulação sem fim. O que ocorre depois o filme deixa no escuro. Quem ficou aguardando uma continuação, esperou em vão. É bom que seja assim: é deixada à imaginação do espectador o que ocorre com Truman no “mundo real”, onde ele sem dúvida fará muitas desagradáveis descobertas

A vida do prisioneiro após sair de sua platônica Caverna, ou melhor, como é estar com a consciência desperta após livrar-se das correntes e miragens ideológicas, tudo isso, que Peter Weir relega ao escuro que segue o “The End”, está aí para cada um descobrir – basta, para isso, mover-se para sentir as correntes que nos prendem, e em seguida cortá-las, para viver na pele o que é, após ter sido condenado a estar preso, imitando estereótipos, descobrir como é estar condenado a ser livre, forjador autônomo de percurso próprio…



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Simone de Beauvoir (1908–1986)


Liberdade

Que nada nos limite
Que nada nos defina
Que nada nos sujeite
Que a liberdade
seja a nossa própria substância...


Simone de Beauvoir (1908–1986)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Angelus Novus e Walter Benjamin: A visão da História.





Walter Benjamin foi um dos grandes pensadores do século XX, e em seu artigo sobre História intitulado sobre o conceito de história. Benjamin discute e analisa uma nova abordagem sobre o entendimento da Teoria da História e suas conjunturas com o "materialismo histórico" de Karl Marx.

O quadro pertencia ao filósofo judeu-alemão, e encontra-se, atualmente, no Museu de Israel em Jerusalém. Na época que deparou-se com o quadro, Benjamin vivia uma existência errante - morando em quartos baratos de pensões ordinárias - e melancólica, devido, em grande parte, por ter sido recusado como livre-docente da Universidade de Frankfurt, pois sua tese intitulada A origem do drama barroco alemão possuía sérias críticas aos padrões acadêmicos vigentes e também por ter sentido na pele a eclosão do sentimento anti-semita na Alemanha pré-nazista.

A questão é que talvez essa obra de Klee não tivesse alcançado tanto reconhecimento como uma das obras de arte mais significativas do começo do século XX se não tivesse fascinado tanto Walter Benjamin. O olhar alerta e furioso do anjo, suas asas abertas que nos lembram também garras afiadas e os dentes à mostra de modo que mais parecem presas, para Benjamin, configuram uma poderosa imagem da história. Os seus olhos enxergam a imensa série de massacres e catástrofes promovidas pela humanidade ao longo do passado. Impotente, ele não pode voltar para redimir os mortos e limpar essas ruínas sob as quais jazem incontáveis cadáveres. Um vento misterioso o arrasta em direção ao futuro. Através dos olhos de Angelus Novus, Walter Benjamin,na obra Magia e técnica, arte e política, viu uma poderosa imagem da história caracterizada pela mistura dos tempos e pela barbárie que existe por trás das conquistas da civilização europeia.

Confira o trecho citado:


“Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
Gerhard Scholem, Saudação do anjo 


Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistível-mente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.


Em um ensaio intitulado "Benjamin y lo demoníaco", o filósofo italiano Giorgio Agamben ressaltou que essa leitura realizada do quadro de Paul Klee pelo pensador judeu-alemão comporta muitos elementos da cabala judaíca. O jovem Benjamin nutriu um vasto interesse pelos significados da mística judaíca ao ponto de construir uma sólida amizade com o teólogo judeu Gersom Scholem. De acordo com essa liturgia, os anjos também podem ser os portadores de características luciferinas. Podem ser hermafroditas, possuindo aspecto feminino e nome masculino. E nenhum anjo possuia garras afiadas e aspecto de fera quanto Satanás. Destituído das garras e das presas, essa mesma iconografia se torna uma representação de Eros de acordo com o imaginário europeu. Assim, Angelus Novus é o novo anjo, portador de uma mensagem de felicidade que nasce a partir da ruptura das tradições.

O quadro Angelus Novus soa, portanto, como uma crítica a um humanismo hipócrita, que em sua busca de tornar o homem a imagem e semelhança de Deus acabou legitimando inúmeros crimes. Esse anjo decaído pode ser o mensageiro de um humanismo mais autêntico porque é profano e profanador. A felicidade mundana, portanto, histórica, não seria incompatível com uma certa felicidade messiânica. Se essa imagem intrigante e múltipla possibilitou a um intelectual como Walter Benjamin romper com o positivismo, que transformou a escrita da história na mera coleta de fatos e datas, para criar um estilo próprio de pensar cientificamente a partir do delírio, da mística e do devaneio, precisamos dar mais atenção ao que esses olhos raivosos querem nos comunicar.




Walter Benedix Schönflies Benjamin nasceu no seio de uma família judaica, filho de Emil Benjamin e Paula Schönflies Benjamin, comerciantes. Na adolescência, participou do Movimento da Juventude Livre Alemã, de tendência socialista.

Em 1915, conhece o filósofo e historiador Gerschom Gerhard Scholem, de quem se torna grande amigo.

Após estudar filosofia na Universidade Freiburg im Breisgau, doutorou-se pela Universidade Bern, em 1919, com a tese O conceito de crítica de arte no romantismo alemão.

Com a ascensão do nazismo ao poder, Benjamin, já abalado por dificuldades materiais, exilou-se em Paris, em 1935.

Com a invasão da França pelos alemães, em 1940, juntou-se a um grupo de refugiados que tentava a fuga pelos Pireneus. Detido na fronteira pela polícia espanhola, que ameaçou entregar o grupo à Gestapo, Benjamin suicidou-se. No dia seguinte, contudo, as autoridades permitiram a passagem do grupo.



Crítico de idéias e fatos

Walter Benjamin é considerado um dos mais importantes pensadores modernos. Em vida, seus escritos não alcançaram repercussão, embora ele já fosse respeitado em alguns círculos, conseguindo o estímulo decisivo de filósofos como Ernst Bloch e T. W. Adorno.

Adorno, aliás, responsável pela edição póstuma das obras de Benjamin, considerou-o antes de tudo como um filósofo que teria tentado subtrair-se ao pensamento classificatório, filosofando contra a filosofia.

O que mais interessa na obra crítica de Benjamin é a abordagem de temas concretos da literatura, da arte, das técnicas, da vida social, etc., sem abandono do rigor conceitual. Benjamin é, por isso, além de filósofo, um crítico de ideias e fatos.

Os escritos de Benjamin ficaram esparsos em periódicos e só três livros foram por ele publicados em vida. Além de sua tese de doutoramento, publicou uma tese reabilitando o barroco alemão (Origem da tragédia alemã) e um volume de ensaios e reflexões (Rua de mão única), ambos em 1928.

Entre seus ensaios destacam-se "As afinidades eletivas de Goethe", "Sobre alguns temas em Baudelaire", "Teses sobre filosofia da história", "Paris, capital do século 19" e "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica".



Para saber mais:

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política.

LOWY, Michael. Walter Benjamin - Aviso de Incêndio - Uma Leitura das Teses " Sobre o Conceito de História ".


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Bauman e as Relações Humanas!



“As relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual. Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade. Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, prometem uma ansiedade perpétua e uma vida em estado de alerta. Os sinais de aflição nunca vão parar de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar.”
Zygmunt Bauman

Em tempos líquidos, a crise de confiança traz consequências para os vínculos que são construídos. Estamos em rede, mas isolados dentro de uma estrutura que nos protege e, ao mesmo tempo, nos expõe. É isso mesmo? O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro Medo líquido, diz que estamos fragilizando nossas relações e, diante disso, nos contatamos inúmeras vezes, seja qual for a ferramenta digital que usamos, acreditando que a quantidade vai superar a qualidade que gostaríamos de ter.
Bauman diz que, nesses tempos líquidos-modernos, os homens precisam e desejam que seus vínculos sejam mais sólidos e reais. Por que isso acontece? Seriam as novas redes de relacionamento que são formadas em espaços digitais que trazem a noção de aproximação? Talvez sim, afinal a conexão com a rede, muitas vezes, se dá em momentos de isolamento real. O sociólogo, então, aponta que, quanto mais ampla a nossa rede, mais comprimida ela está no painel do celular. “Preferimos investir nossas esperanças em ‘redes’ em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja celulares disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade”, aponta ele.
E já que as novas sociabilidades, aumentadas pelas pequenas telas dos dispositivos móveis, nos impedem de formar fisicamente as redes de parcerias, Bauman diz que apelamos, então, para a quantidade de novas mensagens, novas participações, para as manifestações efusivas nessas redes sociais digitais. Tornamo-nos, portanto, seres que se sentem seguros somente se conectados a essas redes. Fora delas os relacionamentos são frágeis, superficiais, “um cemitério de esperanças destruídas e expectativas frustradas”.
A liquidez do mundo moderno esvai-se pela vida, parece que participa de tudo, mas os habitantes dessa atual modernidade, na verdade, fogem dos problemas em vez de enfrentá-los. Quando as manifestações vão para as ruas, elas chamam a atenção porque se estranha a formação de redes de parceria reais. “Para vínculos humanos, a crise de confiança é má notícia. De clareiras isoladas e bem protegidas, lugares onde se esperava retirar (enfim!) a armadura pesada e a máscara rígida que precisam ser usadas na imensidão do mundo lá fora, duro e competitivo, as ‘redes’ de vínculos humanos se transformam em territórios de fronteira em que é preciso travar, dia após dia, intermináveis conflitos de reconhecimento.”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Iluminismo ou A era da Razão




"O Iluminismo é a saída dos homens do estado de minoridade devido a eles mesmos. Minoridade é a incapacidade de utilizar o próprio intelecto sem a orientação de outro. Essa minoridade será devida a eles mesmos se não for causada por deficiência intelectual, mas por falta de decisão e coragem para utilizar o intelecto como guia. 'Sapere aude!' 'Ouse usar seu intelecto!' é o lema do Iluminismo." Assim o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) definiu esse movimento filosófico que se estendeu das últimas décadas do século 17 aos últimos decênios do século 18, em especial na França, Inglaterra, Escócia e Alemanha, embora sua influência tenha se expandido até o Novo Mundo.


As luzes da razão

Essa linha filosófica se caracteriza pelo empenho em estender a razão como crítica e guia a todos os campos da experiência humana. Nesse sentido, ela pretende levar as luzes da razão às trevas da ignorância e do obscurantismo e compreende três aspectos diversos, mas relacionados entre si:


* extensão da crítica a toda e qualquer crença e conhecimento sem exceção;
* realização de um conhecimento que, por estar aberto à crítica, inclua e organize os instrumentos de sua própria correção;
* uso efetivo do conhecimento assim atingido com o fim de melhorar a vida privada e social dos homens.
Vamos analisar cada um desses aspectos em particular...


Fé na razão

Se por um lado o Iluminismo adota a fé na razão, ao mesmo tempo considera limitado o poder da razão, cuja expressão típica é a doutrina da coisa em si, ou seja, os poderes cognoscitivos do homem, tanto sensíveis quanto racionais, vão até onde vai o fenômeno, mas não além, quer dizer, não atinge a coisa em si, independentemente de sua relação com o homem, para o qual é um objeto de conhecimento. Por outro lado, considerada a limitação dos poderes cognoscitivos, não existem campos privilegiados dos quais a crítica racional possa ser excluída. Em particular, isso implicava os campos da política, da moral e da religião, que até então eram tabus para o pensamento racional, aos quais o importante filósofo e matemático racionalista francês René Descartes (1596-1650) achava que a razão não tinha outra coisa a sugerir além da reverência às normas tradicionais.


Princípios racionais de governo

O Iluminismo não aceitava as renúncias cartesianas. Ao contrário, estendeu a indagação do domínio da religião e da política, propondo uma religião natural ou racional, fundada não na revelação histórica, mas na manifestação natural da divindade à razão do homem (deísmo), ao mesmo tempo que questionavam os fundamentos do poder absolutista e procuravam estabelecer os princípios racionais do governo e da organização social. Da mesma forma, evidenciando a importância dos sentimentos e das paixões na conduta do homem, buscam novos pilares para a vida moral do homem. Essa atitude crítica do Iluminismo expressa-se principalmente em sua hostilidade à tradição, que considera a força mantenedora das crenças e preconceitos que deveriam ser destruídos. Para os iluministas, tradição e erro coincidiam. Apesar de essa tese poder parecer exagerada hoje, não se pode esquecer que foi graças a ela que se venceram os poderosos entraves que a tradição impunha à livre pesquisa. O segundo aspecto a ser destacado no Iluminismo é que ele inclui o empirismo, ou seja, considera um atributo do conhecimento válido o fato de poder ser posto à prova. Essa atitude empirista garante a abertura da ciência e conhecimento em geral à crítica da razão, pois consiste em admitir que toda verdade pode e deve ser colocada à prova, sendo eventualmente modificada, corrigida ou abandonada.


Valorização da ciência

É essa atitude do Iluminismo que elevará a ciência (no sentido que essa palavra tem hoje) ao primeiro lugar na hierarquia das atividades humanas. A física - sistematizada primeiramente na obra de Isaac Newton - é considerada pelos iluministas como a ciência mãe ou como a "verdadeira filosofia". O Iluminismo também será decisivo para afastar a química da alquimia e assinalar as etapas fundamentais do desenvolvimento das ciências biológicas, com a obra de diversos naturalistas. Se os resultados obtidos pelas ciências dessa época - séculos 17 e 18, vale recordar - já foram ultrapassados nos dias de hoje, cabe ressaltar que eles puderam ser questionados e corrigidos pelo próprio compromisso fundamental do Iluminismo de não bloquear a obra da razão em nenhum campo e em nenhum nível, considerando todo resultado incompleto, provisório e passível de ser corrigido.


Revoluções republicanas

Finalmente, o Iluminismo inclui o compromisso de se utilizar a razão e os resultados que ela pode obter nos vários campos de pesquisa para melhorar a vida individual e social do homem. Politicamente, as ideias iluministas expressaram-se na Revolução Americana, de 1776, e Francesa, de 1789, que apresentavam como seu objetivo declarado a felicidade ou o bem-estar da humanidade. Além disso, no plano social, o Iluminismo é responsável por duas concepções de fundamental importância para a cultura moderna e contemporânea: os conceitos de tolerância e de progresso. O princípio de tolerância religiosa além de colocar a necessidade de convivência pacífica das várias confissões religiosas, também foi responsável pela separação entre religião e Estado. Por outro lado, o compromisso de transformação iluminista leva à concepção da história como progresso, ou seja, como possibilidade de melhoria do ponto de vista do saber e dos modos de vida do homem.




domingo, 9 de novembro de 2014

Todos os Livros de Michel Foucault para download


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O Homem de bem que crimes voce praticou hoje?


Este texto vem de uma dica de um amigo, que faz pensar na questão cristã de bem e mau, uma passagem do livro de Nietzsche "Além do Bem e do Mal" tem uma passagem interessante:

(…) Aos homens ordinários (…), a esses a religião proporciona uma inestimável satisfação com seu estado e seu modo de ser, uma reiterada
paz no coração, um enobrecimento da obediência, […]


Confira o texto na integra retirado do site Justificando.com:


Por Airto Chaves Junior e Fabiano Oldoni



Em 06 de março de 1927, o filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) proferiu uma palestra em Battersea, organizado pela Secção do Sul de Londres da National Secular Society. O trabalho, intitulado “Porque não sou Cristão”, foi publicado posteriormente em 1957, quando foram reunidos textos e discursos do autor publicados e proferidos ao longo dos anos que antecederam a publicação, nesta oportunidade, acrescido do subtítulo “(…) e outros ensaios sobre religião e assuntos correlatos”.

Como matemático e, assim, apoiado nos pilares do logicismo, para apresentar as razões pelas quais não se considera um cristão, Russell procura, inicialmente, tratar de construir um conceito do que é “ser cristão”. Importa anotar que o conceito aqui trazido pelo autor e explicado a partir de significados partilhados que criam e sustentam a estrutura do “ser cristão” é, sem dúvida, objeto de concordância de quase que a totalidade das pessoas que se dizem cristãos. A partir disso, o autor identifica características indispensáveis que alguém, realmente cristão, deve ostentar. Dentre as muitas anotadas, vale registrar aqui o título que cuida do “Caráter de Cristo”. Neste campo, citamos o autor:


(…) Acho que há muitíssimos pontos em que concordo com Cristo muito mais do que o fazem os cristãos professos. Não sei se poderia concordar com Ele em tudo, mas posso concordar muito mais do que a maioria dos cristãos professos o faz. Lembrar-voceis que Ele disse: “Não resistais ao mau, mas, se alguém te ferir em tua face direita, apresenta-lhe também a outra”. Isto não era um preceito novo, nem um princípio novo. Foi usado por Lao-Tse e por Buda cerca de quinhentos ou seiscentos anos antes de Cristo, mas não é um princípio que, na verdade, os cristãos aceitem. Não tenho dúvida de que o Primeiro-Ministro (Stanley Baldwin), por exemplo, seja um cristão sumamente sincero, mas não aconselharia a nenhum de vós que o ferisse na face. Penso que, então, poderíeis descobrir que ele considerava esse texto como algo que devesse ser empregado em sentido figurado. Há um outro ponto que julgo excelente. Lembrar-vos-eis, por certo, de que Cristo disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Não creio que vós considerásseis tal princípio como sendo popular nos tribunais dos países cristãos. Conheci, em outros tempos, muitos juízes que eram cristãos sumamente convictos, e nenhum deles achava que estava agindo, no que fazia, de maneira contrária aos princípios cristãos. Cristo também disse: “Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”. (…) Há ainda uma máxima de Cristo que, penso, contém nela muita coisa, mas não me parece seja muito popular entre os nossos amigos cristãos. Diz Ele: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres”. Eis aí uma máxima excelente, mas, como digo, não é muito praticada. Todas estas, penso, são boas máximas, embora seja um pouco difícil viver-se de acordo com elas. Quanto a mim, não afirmo que o faça – mas, afinal de contas, isso não é bem o mesmo que o seria tratando-se de um cristão.



Problema é que, a partir dos predicados levantados numa construção razoavelmente consensual (e que, fatalmente, aqueles que se consideram Cristãos concordam), desconfiamos que pouquíssimas (para não dizer nenhuma) das pessoas que se dizem Cristãos se encaixam nestes atributos. E, se assim o é, essas pessoas, apesar de se intitularem Cristãos, não o são.

Por via contrária, há uma probabilidade beirando a certeza de você que se diz Cristão (e, pelo que se verificou, não o é) ser, na verdade, um criminoso. Para tanto, faz-se necessário um exame de consciência e, sobretudo, apesar das dificuldades, uma autocrítica de seu comportamento diário. Antes, porém, façamos o que fez Bertrand Russell com a teoria ramificada dos tipos: conceituemos “criminoso”.

Creio que concordemos que “criminosa” é a pessoa que pratica algum crime. Dentro desta perspectiva, QUALQUER PESSOA que tenha o seu comportamento subsumido a algum tipo penal pode ser considerada delinquente.

Resolvida esta questão, façamos agora o exame de consciência e exercício de memória para verificar se praticamos alguns desses comportamentos listados a seguir: se emprestamos um objeto de alguém e não o restituímos, incorremos no crime de apropriação indébita; se nos embriagamos ou nos entorpecemos de outras formas e passamos a conduzir um veículo automotor com capacidade psicomotora alterada, praticamos o crime de embriaguez ao volante; se ameaçamos alguém para que pague uma dívida (legítima), incorremos no delito deexercício arbitrário das próprias razões; ao momento em que atribuímos adjetivações depreciativas à outra pessoa, ofendendo a sua dignidade ou decoro, praticamos o crime deinjúria; se registramos informação não verdadeira ou omitirmos informação em documento, desde que “com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante”, cometemos o crime de falsidade ideológica (declarar, não sendo verdade, que fulano reside no seu endereço, por exemplo); se fizermos afirmação falsa ou negamos a verdade como testemunha, em processo judicial, ou administrativo, ou mesmo em Inquérito Policial, incorremos no crime de falso testemunho; caso o funcionário público (também o equiparado) se apropria de qualquer valor ou bem de que tem a posse em razão do cargo, em proveito próprio ou alheio, está ele a praticar o crime de peculato. E aqui vale um destaque especial: dificilmente existe servidor público no Brasil que não tenha se enquadrado (ao menos formalmente) nesta infração penal. Basta verificar se ele (o servidor) procede a impressões para fins particulares (seja para estudo, seja para questões outras). Por óbvio que o infrator estatal irá dizer: “mas o prejuízo aqui é irrelevante!”. Sim, concordamos. Porém, muitos desses servidores que frequentemente se valem desse expediente para a solução de questões particulares, são implacavelmente intolerantes com os autores de furtos de bagatela, não hesitando e atribuir-lhes a pecha de “bandidos”.

Além disso, há delitos comumente praticados por aqueles (e, especialmente, por eles) que se dizem “homens bons” e que negam peremptoriamente a carapuça de “criminoso” por sobre suas cabeças: crimes ambientais, crimes de sonegação fiscal, crimes de drogas (usar medicamento controlado pela ANVISA – Portaria 344/98) sem receita (por exemplo, para dormir), crimes de abuso de autoridade, tráfico de influência, exploração de prestígio, descaminho, ameaça, corrupção (ativa e passiva), falsidade documental e outras práticas bastante corriqueiras que se extrai do cotidiano dos auto-intitulados tolerantes “cidadãos de bem”.

O fato é que TODOS NÓS praticamos comportamentos como esses (tipificados penalmente) sem que tenhamos conta de que a impunidade que criticamos em alto tom e aos quatro cantos do Brasil aqui nos favorece. E então, somos criminosos? A resposta é: depende. Se o conceito desta categoria é diagnosticado pela prática da infração penal, a resposta fatalmente será SIM.

Vejam que a gama de tipos penais é tão vasta que se todos os furtos, falsidades, abortos, receptações, corrupções, lesões corporais, ameaças, ou seja, se todas as práticas de infrações penais fossem concretamente criminalizadas, praticamente não haveria habitante que não fosse, por diversas vezes, criminalizado.

Então, caso o leitor, fã da repressão e aprisionamento acredite no cárcere como instrumento de transformação do ser humano (para melhor, é claro) tenha alguma vez praticado algum dos comportamentos registrados acima ou ainda, qualquer outro que se encaixe formalmente num tipo penal, perguntamos: quanto tempo atrás das grades seria necessário para você se tornar um verdadeiro “homem de bem”? Ou, você é um delinquente que não merece repressão e que se vale da impunidade que tanto critica?

Pois é. Para acabar com a criminalidade (por completo), como prega insistentemente o “homem de bem”, ao que parece, seria necessário exterminar com uma das fontes de criminalização: ou com o objeto criminalizador (Direito Penal) ou com o sujeito criminalizado (ser humano). Simples assim.

Vejam, então, que o discurso ancorado no tripé endurecimento das leis, repressão penal e encarceramento desfigura a realidade, sobretudo, porque não serve nem mesmo para quem o sustenta. Conforme anotam Hassemer e Muñoz Conde, não existe nenhuma sociedade sem crimes. Os crimes estão intimamente ligados ao processo de socialização dos indivíduos, de forma que o conflito tem de desempenhar um papel e até mesmo uma missão na manutenção e evolução da sociedade. Este, aliás, é o lugar onde a sociologia funcionalista desenvolve sua tese sobre a normalidade do crime: conceber a sociedade como um sistema de pessoas inter-relacionadas. E o que isso quer dizer? Especialmente, que “não há nenhum fenômeno que inevitavelmente mostre todos os sintomas de crime”. Estanquemos essa ingenuidade (ou má-fé, a depender de quem discursa), pois o desvio tem origem na distribuição de papéis dentro de qualquer sociedade.

Agora, se você, homem de bem, diz-se ainda “cristão” e “não delinquente”, procure utilizar dos (SEUS) conceitos de “ser cristão” e “ser criminoso” para aquele contra quem você brada por repressão e cárcere. O que não é razoável é o incremento de dois discursos: um, que atende aos seus interesses mais próximos; outro, para quem se pretende manter distância. Neste caso, além de delinquente, você comportaria um grau elevadíssimo de hipocrisia e, então, tomando-se por base o logicismo de Russell, conveniaria atribuir-te uma tríplice adjetivação nos seguintes termos: “não cristão”, “delinquente” e “hipócrita”.

Para finalizar, e em homenagem ao “homem-de-bem”, uma reflexão brechtiana intitulada “Perguntas a um bom homem” serve aqui:


Avança: ouvimos dizer que és um homem bom.

Não te deixas comprar, mas o raio que incendeia a casa, também não pode ser comprado.

Manténs a tua palavra. Mas que palavra disseste?

És honesto, dás a tua opinião. Mas que opinião?

És corajoso. Mas contra quem?

És sábio. Mas para quem?

Não tens em conta os teus interesses pessoais. Que interesses consideras, então?

És um bom amigo. Mas serás também um bom amigo de gente boa?

Agora, escuta:

Sabemos que és nosso inimigo. Por isso, vamos encostar-te ao paredão.

Mas tendo em conta os teus méritos e boas qualidades, vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-se com uma boa pá na boa terra.

Referências Bibliográficas

RUSSELL, Bertrand. Porque não sou cristão: e outros ensaios sobre religião e assuntos correlatos. Tradução de Brenno Silveira. Livraria Exposição do livro, 1972, p. 14-15. CHAVES JUNIOR, Airto; OLDONI, Fabiano. Para que(m) serve o Direito penal: uma análise criminológica da seletividade dos segmentos de controle social. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2014, p. 174-175.

ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda da legitimidade do sistema penal. Tradução de Vânia Romano Pedrosa e Amir Lopes da Conceição. 5. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001, p. 26.

HASSEMER, Winfried; MUÑOZ CONDE, Francisco. Introducción a la Criminologia y al Derecho Penal. Valencia: Tirant lo Blanch, 1989, p. 38-39.

Bertolt Brecht, citado por Slavoj Zizek, inViolência: seis reflexões laterais. Tradução de Miguel Serras Pereira. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 41-43.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

El Empleo (O Trabalho) e a crítica nas relações com o trabalho e o humano.

Ganhador de mais de 100 prêmios em festivais de cinema pelo mundo, o curta-metragem do diretor argentino Santiago Grasso em 7 minutos de vídeo sem diálogos, nos mostra a vida de um trabalhador, do café da manhã a chegada ao trabalho, é uma crítica a nossa relação com o trabalho e principalmente as relações (que relações?)que trazem com ela. Tratando pessoas como objetos achamos que nosso protagonista tem um elevado grau de hierarquia, se mostrando no final que não há maior ou menor e sim todos iguais. assista!